A Participação do Brasil nas Guerras MundiaisCel Art Sérgio Paulo Muniz Costa
"A opinião popular transvia-se muitas vezes. Não raro, um vento de insânia, despertando instintos bárbaros, açoita e abala os povos, mesmos os mais cultos e cordatos.”
Barão do Rio Branco Conferência Pan-Americana, Rio de Janeiro, 1906 O plano inclinado que arrastou todo o mundo às Guerras Mundiais tomou forma na passagem dos séculos XIX e XX. Imperialismos, colonialismos, militarismos e nacionalismos engendraram o conflito que teve seu estopim na crise de Saravejo e ensangüentou a Europa entre 1914 e 1918. Vinte anos depois, um torvelinho de ideologias, racismos e conflitos econômicos deu nova dimensão, verdadeiramente global e mundial, à confrontação, que deflagrou a guerra em setembro de 1939. A seqüência das duas guerras mundiais - 1a Grande guerra, de 1914 a 1918, e 2ª Grande Guerra, de 1939 a 1945 - pode ser considerada a Guerra dos Trinta Anos da Idade Contemporânea, da qual emergiu uma nova realidade de poder mundial.
Uma apreciação das causas imediatas do conflito mundial da Idade Contemporânea pode ter início na Conferência de Haia de 1899. Refletindo a conjuntura de militarização mundial, esta Conferência produziu um único acordo para resolução pacífica de conflitos e 6 declarações sobre leis de guerra e emprego de armamentos. Na Conferência de 1907 essa relação se ampliou, com um único acordo de prevenção de conflitos e 11 de regulação de conflitos. O mundo caminhava célere para o trágico século XX, admitindo a guerra como recurso válido para a solução de controvérsias das mais diversas naturezas.
Houve vozes dissonantes. O Brasil, representado por uma delegação composta por civis e militares de prestígio e chefiada pelo lendário Rui Barbosa, alçado pela opinião pública brasileira à liderança dessa significativa representação, defendeu o princípio da igualdade jurídica das nações soberanas, contestando a proposta militarista das grandes potências. Joaquim Nabuco apoiou o trabalho de Rui Barbosa, fornecendo documentos e informações.

Rui Barbosa, nomeado Presidente de Honra da Primeira Comissão e incluído entre os Sete Sábios de Haia, destacou-se entre os seus pares, levando àquela assembléia a mensagem do Brasil por um mundo mais justo, equilibrado e pacífico. A pertinência e propriedade das intervenções de Rui Barbosa atraíram a ira do representante do Kaiser alemão, que se recusava a aceitar “ que um advogado de meia casta” influísse nos destinos do mundo. Em 28 de junho de 1914, o assassinato do Arquiduque Francisco-Ferdinando, herdeiro da coroa austro-húngara, em Saravejo, na Bósnia-Herzegovina, deu início à corrida para a guerra. A 1º de agosto, a Alemanha declarou guerra à Rússia, dois dias depois, à França, e, no dia 4 de agosto, invadiu a Bélgica, desencadeando o Plano Schlieffen contra a França, que provocou a declaração de guerra da Inglaterra. Iniciou-se o conflito entre os blocos formados, por um lado, pela França, Inglaterra, Rússia, Bélgica e Sérvia, as Potências aliadas, e de outro, Alemanha e Áustria-Hungria, as Potências Centrais. Em pouco tempo, interesses regionais e coloniais atraíram Itália, Portugal, Romênia e Japão ao bloco aliado, e a Turquia e Bulgária ao bloco das Potências Centrais. O Brasil, de forma coerente com sua participação em Haia, proclamou sua neutralidade. No entanto, em pouco tempo, o conflito foi se estendendo ao continente sul-americano. Os ingleses sofreram importante derrota na batalha naval das Ilhas Coronel, ao largo da costa chilena, destruindo, em revide, uma força naval alemã na Batalha das Falklands. Cruzadores alemães, disfarçados de mercantes, violam os portos brasileiros. Agentes alemães incitam greves operárias e promovem tentativas de mobilização dos contingentes de imigrantes germânicos no Sul do País. O modo de atuação não era exclusivamente praticado na América do Sul. Na América do Norte, pessoal da Marinha alemã participava da Guerra civil mexicana e agentes alemães estavam envolvidos em levantes armados na Índia. Coincidência ou não, um dos mais famosos e atuantes líderes da Revolta do Contestado (1912-1915), foi “Alemãozinho”, desertor de uma canhoneira alemã, que visitou portos do Sul do País nesse período.
Em 3 de abril de 1917, às 23:00 horas, o navio brasileiro “Paraná”, da Companhia de Comércio e Navegação foi torpedeado e canhoneado ao largo da costa francesa por um submersível germânico. Oito dias depois, o governo brasileiro suspendeu as relações diplomáticas com a Alemanha, emitindo nota na qual deixava bem claro seu apoio aos Estados Unidos e reiterava os princípios da solidariedade continental. Nesse interím, a 6 de abril, os Estados Unidos haviam declarado guerra às Potências Centrais, revidando uma série de ataques à sua navegação.
O afundamento dos navios brasileiros Tijuca, Macau, Acari, Guaíba e Tupi levou o Brasil a reconhecer o estado de guerra com a Alemanha, em 26 de outubro de 1917. O Presidente Venceslau Braz, autorizado pelo Congresso Nacional, abriu os portos brasileiros aos navios das nações aliadas e assumiu o patrulhamento de águas do Atlântico Sul. Além desses navios, o Brasil ainda perdeu, torpedeado, o vapor “ Lapa”.

Poucos meses depois, a 7 de maio de 1918, partia para Gibraltar a Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG) da Marinha do Brasil, cuja esquadra oceânica era constituída pelos Cruzadores Rio Grande do Sul e Bahia, os Contratorpedeiros Parahyba, Santa Catarina, Piauhy e Rio Grande do Norte, e o Navio Auxiliar Belmonte. Foi incorporado também à Divisão o rebocador de alto mar Laurindo Pitta, ainda hoje navegando incorporado ao acervo do Centro Cultural da Marinha do Brasil no Rio de Janeiro. A DNOG, de cara memória para Marinha do Brasil, comandada pelo Contra-Almirante Pedro Max Fernando de Frontin, cumpriu cabalmente sua missão, tocando Freetown a 9 de agosto de 1918, onde foi atingida pela gripe espanhola, e aportando em Dacar a 26 de agosto.

Uma Missão Militar foi enviada a Paris para articular a participação brasileira no esforço de guerra. Oficiais do Exército foram incorporados a unidades francesas, tomando parte nas operações na Frente Ocidental. O então Tenente José Pessoa Cavalcante de Albuquerque, que mais tarde teria participação decisiva na modernização da Força Terrestre, com a incorporação dos blindados e a criação da Academia Militar das Agulhas Negras, comandou, em combate, o 4º Pelotão de Dragões do Exército francês. O Capitão Tertuliano Potiguara, herói da Campanha do Contestado, no comando de uma fração de tropa, foi ferido na Batalha de San Quentin. Uma Missão Militar Médica brasileira, integrada por médicos do Exército e da Marinha e ainda acadêmicos brasileiros, foi criada em Paris, tendo significativa atuação também no combate à calamitosa gripe espanhola no interior da França.

A participação militar brasileira também se estendeu à aviação, com o envio, em janeiro de 1918, de oito aviadores da Marinha – CT Vasconcellos e Tenentes De Lamare, Sá Earp, Moura, Varady, Eugênio Possolo, Olavo de Araújo e Lauro de Araújo - e um aviador do Exército – Capitão Aliatar. Esses aviadores, inicialmente incorporados ao Royal Navy Air Service (RNAS) desempenharam missões de patrulha em uma esquadrilha constituída por pessoal britânico, brasileiro e norte-americano, voando a aeronave Sopwith Camel (figura acima), sob controle operacional do Grupo 10, da Royal Air Force (RAF), surgido da fusão do RNAS com o Royal Flying Corps, do Exército britânico. Dois aviadores perderam a vida em acidentes em serviço, os Tenentes Eugênio Possolo e Olavo de Araújo. A Marinha do Brasil enviou ainda os Tenentes Godinho e Fileto e o Suboficial Silva Júnior para cumprirem missões de patrulha junto à Marinha dos EUA.
Inúmeros são os antecedentes e causas da Segunda Guerra Mundial. O cunho revanchista do Tratado de Versalhes, as ideologias totalitárias, a persistência na crença da solução militar para a resolução de controvérsias, a falência da Liga das Nações e a crise econômica mundial desencadeada em 1929 criaram, nos anos 30, uma escalada de enfrentamento econômico, político, militar e ideológico que culminou no desencadeamento do maior conflito bélico da História.
A Segunda Guerra Mundial teve início em 1º de setembro de 1939, com a invasão alemã da Polônia. Em pouco tempo, o conflito envolveu quase todos os países da Europa. Em junho de 1940, a queda da França perante a Alemanha nazista tornou mais dramática a situação. Com o ataque da Alemanha, em junho de 1941, à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e o ataque aeronaval japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, em 7 de dezembro, a guerra escalou à dimensão mundial, numa intensidade e amplitude até então nunca vistas.
Os enfrentamentos logo se estenderam ao Hemisfério ocidental. O afundamento do encouraçado de bolso germânico Graf Spee, em frente a Montevideo, no Uruguai, depois do combate no dia 13 de dezembro de 1939, com os cruzadores britânicos Ajax, Exeter e Achiles, e outros atos de violação da neutralidade americana, inclusiva brasileira, pelos beligerantes, levou à Conferência do Panamá, na qual foi proclamada neutralidade do Hemisfério. A queda da França, em junho de 1940, e os temores de que a Alemanha nazista reclamasse as colônias que os países vencidos – França e Holanda – mantinham no Hemisfério, motivou nova conferência, em Havana, naquele mesmo ano. Com o ataque japonês a Pearl Harbor, e a entrada dos Estados Unidos na guerra, nova Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos, a Terceira, ocorreu no Rio de Janeiro, entre 15 e 18 de janeiro de 1942, tendo como corolário o compromisso de “ .... que todo atentado de um Estado não americano contra a integridade ou inviolabilidade do território, contra a soberania ou independência política de um Estado americano será considerado um ato de agressão contra os Estados que assinaram esta Declaração”. Em função da agressão japonesa, o Brasil apóia os Estados Unidos e rompe relações diplomáticas com a Alemanha e Japão.
A escalada da guerra submarina provoca novas perdas à navegação mercante brasileira em águas internacionais, a despeito dos protestos do governo do Brasil. O Fuhrer alemão, Adolf Hitler, havia autorizado à Marinha de Guerra da Alemanha um ataque geral aos principais portos brasileiros, no segundo semestre de 1942, constando de torpedeamento de navios ancorados, bombardeio das instalações portuárias e minagem da entrada dos portos, a ser realizado por uma flotilha de seis submarinos. A escassez de submarinos e considerações políticas conduziram à redução dos meios de ataques alemães ao U-507. Entre 15 e 17 de agosto de 1942, naquilo que nossa História Naval denomina o “ Massacre do Rio Real”, o U-507, atuando desde a foz do Rio Real, no litoral de Sergipe, até o largo de Salvador, Bahia, afundou os navios mercantes Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará, provocando a morte de mais de 600 pessoas, só se afastando com a aproximação de aviões da Base Aérea de Salvador e do Cruzador Rio Grande do Sul que acorreu em auxílio à Arará. O Brasil tornara-se assim a primeira nação do Hemisfério a sofrer a agressão da Alemanha em sua area continental na Segunda Guerra Mundial. A 22 de agosto de 1942, o governo brasileiro reconheceu o estado de beligerância com a Alemanha e Itália.
No dia 24 de agosto de 1942, em sessão extraordinária da recém-criada Junta Interamericana de Defesa (JID), o General Amaro Bittencourt, Chefe da Delegação do Brasil, que mais tarde viria a se transformar na Representação do Brasil na JID (RBJID), transmitiu aos delegados daquele organismo militar internacional a nota enviada pela Chancelaria brasileira, reconhecendo o estado de guerra com a Alemanha e Itália, após os ataques perpetrados à nossa navegação, seguindo-se manifestações de solidariedade das delegações presentes.

A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial foi maior do que no conflito anterior. O País se tornou importante fornecedor de matérias-primas para os aliados numa guerra ainda mais industrial que a 1ª Grande Guerra, atraindo grande quantidade de navios mercantes aliados aos seus portos. Da costa do Brasil, largamente debruçada sobre o Atlântico Sul, lançaram-se patrulhas navais e aéreas que participaram da Batalha do Atlântico. O Nordeste brasileiro, situado estrategicamente no Estreito do Atlântico, tornou-se o trampolim da vitória, decisivo para o aporte do apoio logístico à invasão aliada da África do Norte, que selou o fim do Afrika Korps. Por outro lado, isso atraiu os ataques dos submersíveis alemães e italianos, freqüentes em nossa costas, não só em ataques à navegação, como em tentativas de reabastecimento e desembarque de agentes.

Para as Forças Armadas a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial constituiu um desafio de grandes proporções, porquanto encontrou o País não completamente preparado para o esforço de guerra. A Marinha do Brasil incorporou novas unidades de luta anti-submarina e organizou o sistema de comboios ao longo do nosso litoral, para navios brasileiros e aliados, na larga zona do Atlântico Sul sob a responsabilidade do Brasil. Sessenta e seis contatos de combate foram assinalados entre as unidades da Marinha do Brasil e a Kriegsmarine, numa luta travada diuturnamente nas imensidões atlânticas. Graças à perseverança da Marinha, o bloqueio à nossa navegação, que se estabelecera com os ataques do U-507, foi logo rompido e retomada a navegação entre os diferentes pontos do litoral do país, numa época em que a falta de boas estradas fazia da navegação costeira praticamente o único meio de comunicação entre as distantes regiões do território nacional.
O Exército teve que enfrentar logo de início duas grandes questões – a defesa do litoral, em particular em torno das bases navais e aéreas brasileiras e norte-americanas desdobradas no Nordeste, e a defesa no Sul do País, onde ativa propaganda nazista pontificava nos núcleos de colonização germânica. A partir da decisão do governo brasileiro em combater o inimigo aonde fosse necessário, somou-se um terceiro desafio – preparar uma Força Expedicionária concebida inicialmente com valor de Corpo de Exército, a três divisões, equipada com material moderno, para combater no além-mar.
A nascente Força Aérea, criada a partir da fusão da Aviação Militar e Aviação Naval, iniciou um acelerado processo de absorção de novos equipamentos e táticas, para enfrentar as necessidades de patrulhamento do litoral e de participação direta nas hostilidades em teatro de guerra no além-mar. Foi a Força Aérea Brasileira (FAB) que primeiro cobrou do inimigo o tributo pela afronta dos torpedeamentos. Depois de uma série de enfrentamentos entre aeronaves brasileiras e submarinos inimigos no Atlântico Sul, desde antes da declaração de guerra, em 31 de julho de 1943, um Catalina brasileiro, pilotado pelo Cap Alberto Martins Torres afundou, a 87 Km ao S do Pão de Açúcar, ao largo do Rio de Janeiro, o U-199, que já havia sido atacado por um Mariner norte-americano da VP-74 e pelo Hudson brasileiro pilotado pelo Cap Sérgio Cândido Schnoor.

A Força Expedicionária Brasileira (FEB), criada a 9 de agosto de 1943, era integrada pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) e órgãos de apoio, e chegou a somar mais de 25.000 homens e mulheres, atuando ininterruptamente nas operações na Italia entre 15 de setembro de 1944 até o término das hostilidades naquele Teatro de Operações (TO). A FEB, organizada em torno da 1ª DIE, combateu no TO onde percentualmente ocorria o maior número de baixas entre as divisões de infantaria norte-americanas e, depois da saída de várias divisões americanas, ingleses e francesas para os TO da França e operações na Grécia, a correlação numérica de forças se tornou equilibrada entre aliados e nazi-fascistas, com a vantagem do terreno para os úlimos. Em 1944, no TO da Itália, depois da saída de 8 divisões aliadas, foi a chegada da 1ª DIE e da 10ª Div Mth Ex EUA que permitiu aos aliados manterem o suficiente poder de combate para continuar a pressionar os alemães, impedindo-os de rocarem meios para outros TO.
É nesse contexto que deve ser apreciada a entrada em operações de toda a Divisão, incompletamente adestrada, em novembro de 1944, depois da estréia brilhante do Destacamento FEB entre setembro e outubro no Vale do Serchio, que passou a atuar no Vale do Reno, face a um inimigo experimentado e articulado em dominante posição defensiva nos Apeninos, e de onde descortinava todos os nossos movimentos. A 1ª DIE, enquadrada no IV C Ex Ex EUA, assumiu uma frente de 18 Km, defendendo, atacando e realizando ações de patrulha entre novembro de 1944 até fevereiro de 1945.
Em 29 de novembro de 1944, a 1ª DIE, cumprindo seu papel no Plano de Operações do IV C Ex, realizou o primeiro ataque brasileiro contra Monte Castelo, sem sucesso. Novo ataque em 12 de dezembro também não logrou êxito, seguindo-se o período de estagnação das operações ofensivas aliadas ao longo de toda frente, depois do malogro geral contra as sólidas defesas alemãs, deixando para trás o lema “ Bolonha antes do Natal” , que acalentava todas as tropa aliadas na Itália.
Em 21 de feveriro de 1945, contando com o apoio do 1o Grupo de Aviação de Caça, da FAB, a 1ª DIE, no contexto da Operação Encore do IV C Ex Ex EUA, atacou e conquistou Monte Castelo, abrindo uma série de vitórias no Vale do Reno que culmirariam com a expulsão do inimigo do Vale do Reno. Estavam criadas as condições nessa parte da frente para o prosseguimento das ações, com a participação na grande ofensiva de primavera, a cargo do 25º Grupo de Exército Aliado, composto por 20 divisões e dez brigadas dos V Ex EUA e VIII EX Britânico.
A 14 de abril, a 1ª DIE, cobrindo o flanco esquerdo do IV C Ex, obtém sua maior vitória – Montese - o episódio mais sangrento da campanha da FEB na Itália. Foram entusiásticas as palavras enviadas, no dia 15, ao Comando da 1ª DIE pelo General Crittenberger, Cmt do IV C Ex, mais tarde, no pós-guerra, Presidente da Junta Interamericana de Defesa (JID):
“Na jornada de ontem, só os brasileiros merecem minhas irrestritas congratulações; com o brilho de seu feito e de seu espírito ofensivo, a Divisão brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade”.
A partir de 19 de abril, as operações entraram em nova fase, tendo os alemães completado seu retraimento do Panaro. Tem início a perseguição, no Vale do Rio Pó, com 1ª DIE atuando no flanco esquerdo do V Ex e protegendo o flanco S do IV C Ex e do V Ex, face aos efetivos ponderáveis do Exército da Ligúria, que se retiravam demandando o N. Segue-se a vitória de Collechio, a 28 de abril, e o combate de Fornovo, em que a vanguarda brasileira consegue dominar a situação e barrar a progressão da força inimiga, cercando-a.

No dia 29 de abril de 1945, começa a rendição da força inimiga. Rendem-se inicialmente dois Batalhões de Infantaria alemães, seguindo-se o 361º Batalhão de Carros de Combate da 90ª Divisão Panzer. Apresenta-se, acompanhado por todos seu Estado-Maior, o General Mario Carloni, Comandante da Divisão Besaglieri. Rende-se toda a 148ª Divisão de Infantaria alemã, com seu Comandante, General Otto Fretter Pico e Estado-Maior, composto por 31 oficiais. Foram capturados 14.779 homens e 2.500 viaturas, das quais mais de 1000 motorizadas. O General Mark Clark, Comandante do 25º Grupo de Exército e antes Cmt do V Ex, ao saber do feito da FEB assim se expressou:
“ Foi o final magnífico de uma atuação magnífica”
Na Itália, as asas brasileiras se cobriram com as glórias do 1º Grupo de Aviação de Caça da FAB, que cumpriu missões de combate, voando aeronaves Republic Thunderbolt P-47, entre 31 de outubro de 1944 até o término das hostilidades na Itãlia, a 3 de maio de 1945.

O 1º Grupo de Aviação de Caça, ostentando o lendário símbolo “ Senta a Pua”, cumpriu missões de combate e reconhecimento, atingindo o clímax de sua participação no dia 22 de abril de 1945, em meio ao esforço aliado da Ofensiva da Primavera. Nesse dia, o 1º G Av voou 11 missões de 44 sortidas, dispondo apenas de 22 pilotos. Entre 6 e 29 de abril o 1º G Av voou 5% de todas as missões do XXII Cmdo Aerotático, tendo-lhe sido creditados no entanto 15% dos veículos destruídos, 28% das pontes destruídas, 36% dos depósitos de combustível danificados, e 85% dos depósitos de munição danificados.
As palavras do Coronel Ariel Nielsen, Comandante do 350º Grupo de Caça da Força Aérea dos EUA, encaminhando ao XXII Comando Aerotático a Proposta de Citação Presidencial do 1º Grupo de Aviação de Caça dispensam qualquer outra referência histórica sobre a atuação dos aviadores brasileiros na Itália:
“Proponho-vos seja o 1º Grupo de Caça Brasileiro citado pelos relevantes feitos realizados no conflito armado contra o inimigo, no dia 22 de abril de 1945. Este Grupo entrou em combate numa época em que era máxima a oposição da anti-aérea aos çaças-bombardeiros. Suas perdas têm sido constantes e pesadas e têm tido poucas substituições. À medida que se tornaram menos numerosos cada um passou a voar mais, expondo-se com maior freqüência. Mesmo assim, em várias ocasiões, tive que refreá-los quando queriam continuar voando, porque considerei que já haviam ultrapassado o limite de resistência. A perícia e a coragem demonstradas nada deixam a desejar. Chamo-vos a atenção para a explêndida exibição do seu excelente trabalho contra todas as formas de interdição e coordenação de alvos. Em minha opinião, seus ataques na região de San Benedetto, no dia 22 de abril de 1945, ajudaram a preparar o caminho para a cabeça de ponte estabelecida pelos Aliados, no dia seguinte, na mesma região. A fim de completar isso, o 1º Grupo de Caça Brasileiro, em seus feitos, excedeu os de todos os outros Grupos e sofreu sérias perdas. Acredito estar refletindo o sentimento de todos os que conheceram o trabalho do 1º Grupo de Caça Brasileiro, ao recomendar que eles recebam a Citação Presidencial de Unidade (PUC - Presidential Unit Citation). Tal citação é, não só meritória, mas tornar-se-ia carinhosa à lembrança dos brasileiros, na comemoração dos esforços que foram desenvolvidos neste Teatro de Operações.“ ( Extraído do Site http://www.sentaapua.hpg.ig.com.br/index.htm)
O Brasil emergiu vitorioso da Segunda Guerra Mundial. Não só militarmente, mas principalmente do ponto de vista moral. Encerrava-se a grande conflagração das Guerras Mundiais a que o Brasil tanto se opusera, desde Haia. Nada auferimos em termos territoriais, nem vantagens obtivemos de qualquer país. Participamos, ativamente dos trabalhos e reuniões de desenho de uma nova era de almejada paz e prosperidade mundiais. Tivemos parte de nossa frota mercante destruída, pagamos até o último cartucho disparado por nossas forças e a derradeira bandagem que curou nossos feridos. Alcançamos o objetivo de incrementar nossa industrialização, com a obtenção do financiamento dos EUA para a criação da Siderúrgica de Volta Redonda. Nossos saldos comerciais deram impulso ao consumo interno e à melhoria do padrão de vida nas principais cidades brasileiras. Como em ocasiões anteriores, fomos o destino esperançoso de imigrantes que procuraram reconstruir suas vidas. Mais de 2.000 brasileiros perderam suas vidas no esforço, número modesto se comparado à hecatombe que se abateu sobre outros povos. Combatemos o bom combate em todas as frentes, do lado certo da História, defendendo a Liberdade, a Democracia, a Tolerância e a Igualdade dos Homens e das Nações. Talvez por tudo isso tenhamos conquistado o direito de abrir a Sessão Plenária Anual da Organização das Nações Unidas, em cujo plenário continuamos a insistir na esperança num mundo melhor, mais justo, solidário e seguro. |